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Leilões virtuais oferecem obras de artistas plásticos consagrados com lances muito abaixo do mercado

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Leilões virtuais oferecem obras de artistas plásticos consagrados com lances muito abaixo do mercado

RIO – Leilões virtuais com nomes como Di Cavalcanti, Milton Dacosta, Tarsila do Amaral, Frans Krajcberg, Alberto da Veiga Guignard, Rubens Gerchman, Djanira e Roberto Burle Marx estão movimentando o mercado de artes plásticas do Rio, mas, desta vez, não pela qualidade das obras. Segundo representantes dos artistas e galeristas, há um derrame de falsificações negociadas a preços muito abaixo dos valores corretos.

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O Antiquário Simões foi notificado no início da semana passada por responsáveis pelas obras de quatro artistas, como revelou Ancelmo Gois. Após o colunista do GLOBO dar a notícia, mais de 200 itens que seriam leiloados foram retirados de seu site. No entanto, outros três endereços eletrônicos que fazem parte da mesma plataforma, a Leilões BR, também estariam oferecendo quadros falsificados

— É uma questão que há muito tempo nos preocupa. O problema transcende o Estado do Rio e se espalha pelo país. Desde que esses leilões começaram a ser realizados pela internet, a situação saiu de controle e as falsificações se multiplicaram — afirma Leonardo Amarantes, que representa a Associação Amigos de Frans Krajcberg

Obra atribuída a Alfredo Volpi tinha lance inicial de R$ 400 Foto: reproduções  

Em um dos leilões, o quadro “Vaso de flores”, de Burle Marx, avaliado no mercado em R$ 400 mil, era oferecido por um lance inicial de R$ 15 mil. Outras cópias de obras do artista plástico e paisagista foram anunciadas na mesma plataforma por preços ainda mais baixos. Nenhum dos trabalhos foi reconhecido pela galerista Soraia Cals, que é representante legal da família de Burle Marx e verifica a autenticidade de obras atribuídas a ele

Perdi a conta das vezes que fui chamada por herdeiros de colecionadores para avaliar obras que não valiam absolutamente nada, por serem falsificações. As que estão sendo vendidas nos sites são tão grosseiras que sequer é necessário fazer um exame físico. Mesmo assim, muita gente ainda compra — conta Soraia

PUBLICIDADE “Achincalhe”, diz herdeira Elizabeth Di Cavalcanti Veiga, filha e herdeira de Di Cavalcanti, e Cláudia Werneck Saldanha, detentora dos direitos autorais da obra de Ione Saldanha, também se mobilizaram contra o derrame de falsificações. Em um comunicado, a filha de Di Cavalcanti afirmou que duas obras anunciadas no site do Antiquário Simões careciam de “qualquer fundamento de autenticidade”

Ao GLOBO, Elizabeth explicou que tomou conhecimento do site pelo jornalista e curador Leonel Kaz, revoltado com “tamanha ousadia”

— Os leilões virtuais não são confiáveis. É um achincalhe com os artistas e compradores. Acho que, nos últimos 15 anos, uma centena ( de obras falsificadas ) dessas “pérolas” foi submetida a mim — comenta Elizabeth

A herdeira de Di Cavalcanti defende maior rigor na criminalização de leiloeiros em casos de comércio de obras falsas

Procurada para comentar a iniciativa do Antiquário Simões, a LeilõesBR informou, em nota, que “as respectivas obras foram retiradas do catálogo e seus representantes legais (galeria/leiloeiro) copiados para ciência e providências”. Além disso, destacou que apenas disponibiliza seu sistema para a realização de leilões, não sendo responsável pelos sites. A empresa explicou que todo evento possui um leiloeiro oficial, credenciado na Junta Comercial e responsável pela certificação do pregão

PUBLICIDADE Responsável pelo pregão do Antiquário Simões, o leiloeiro Márcio Pinho Pereira informou que aguardava o posicionamento do site:

Vamos aguardar. A galeria e os comitentes ( proprietários das obras que estão sendo vendidas ) avaliarão o caso com seus peritos. A minha parte foi realizar o leilão

Em outro leilão pela internet, realizado neste fim de semana, foram oferecidas oito quadros de Iberê Camargo. A fundação responsável pela obra do artista também não reconheceu a autenticidade das pinturas:

– As referidas obras não constam no banco de imagens da Fundação Iberê. Sendo assim, não temos como afirmar a veracidade das mesmas sem uma análise presencial

O presidente da Bolsa de Artes do Rio, Jones Bergamin, explica que são corriqueiros os casos de falsificações que chegam à entidade para avaliação

Quem vai comprar uma obra de arte on-line corre o risco de comprar gato por lebre. O atrativo das obras falsas é o preço. Se alguém vai pagar R$ 2 mil pelo que vale mais de R$ 100 mil obviamente está sendo enganado — afirma Bergamin, acrescentando que a falta de catálogos oficiais das obras da grande parte dos artistas brasileiros dificulta a comprovação de falsificações

PUBLICIDADE O GLOBO também procurou o proprietário do Antiquário Simões, mas não conseguiu contato